Qual é a diferença entre as paredes de pedra do Palácio de Diocleciano, em Split, e o saber tradicional sobre como construir um barco de madeira chamado «batana», em Rovinj? Ambos fazem parte do património croata. Ambos atraem turistas. Mas apenas um deles desaparecerá se ninguém o mantiver vivo.
Qual delas — e porquê? Não te esqueças disso enquanto avanças nesta lição.
O património é um dos recursos mais valiosos herdados do passado. Mas nem todo o património é igual, e confundir as categorias leva a más decisões de gestão. Vamos analisar a situação.
- Património material: O património material é físico: pode ser visto, tocado, fotografado e, em alguns casos, deslocado.
- Património imobiliário tangível: edifícios, monumentos, sítios arqueológicos, paisagens históricas, percursos culturais. Exemplos: o Coliseu (Roma), os Lagos de Plitvice (Croácia), uma casa do século XVII em Rovinj, atualmente utilizada como Casa Batana. Desafio principal: não pode ser deslocado; a destruição é irreversível; requer gestão in situ.
- Património material móvel: objetos que podem ser transportados – ferramentas, manuscritos, trajes tradicionais, moedas, obras de arte, embarcações tradicionais. Exemplo: a própria embarcação «batana» (uma embarcação de pesca de fundo plano exclusiva de Rovinj), os bordados tradicionais de Hrvatsko Zagorje, achados arqueológicos. Principal desafio: podem ser afastados da sua comunidade de origem; podem perder significado sem o seu contexto.
- Património Imaterial (ICH) O ICH é vivo: só existe porque as pessoas o praticam, o ensinam e optam por mantê-lo vivo. Definição da Convenção da UNESCO de 2003: «as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências — bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais a elas associados — que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte do seu património cultural.»
Como é que o tangível e o intangível interagem? Não se trata de mundos separados.
O barco batana é um bem material móvel. O conhecimento sobre a sua construção (as ferramentas, as tradições de seleção da madeira, as canções entoadas durante a construção) constitui Património Cultural Imaterial (PCI). A Casa da Batana, em Rovinj, é um bem material imóvel. A regata comunitária e a música «bitinada» dos pescadores, interpretada durante a mesma, constituem Património Imaterial da Humanidade. A gestão do património deve abordar ambos — em conjunto.
→ Observe a lista abaixo. Classifique cada um deles como bem móvel tangível, bem imóvel tangível ou bem intangível.
- Um conjunto de trajes tradicionais
- Uma catedral gótica
- Uma técnica de reparação de redes de pesca
- Um livro de receitas manuscrito
- Um festival da colheita
O TURISMO COMO MOTOR DO PATRIMÓNIO: OPORTUNIDADES E RISCOS
O turismo tornou-se uma das forças mais poderosas no setor do património. Pode preservar as tradições – ou destruí-las. Compreender esta faceta ambivalente é essencial para quem trabalha na gestão do património.
Oportunidades que o turismo cria para o património:
- Sustentabilidade económica: a venda de bilhetes, os eventos culturais, a gastronomia e o artesanato geram receitas que contribuem para a preservação (como se pode ver no EcoMuseu da Batana, onde as receitas provenientes dos eventos culturais e do restaurante tradicional «Casa da Batana» financiam o funcionamento do museu).
- Empoderamento da comunidade: quando o turismo valoriza uma tradição, a população local sente orgulho dessa tradição e fica motivada a preservá-la.
- Diálogo intercultural: os visitantes de diferentes países ficam a conhecer tradições com as quais nunca teriam contacto de outra forma.
- Financiamento da documentação: as receitas do turismo podem financiar arquivos digitais, gravações de história oral e oficinas de artesanato. • Transmissão intergeracional: quando os jovens vêem que o artesanato dos seus avós suscita interesse, ficam mais motivados a aprendê-lo.
Riscos que o turismo acarreta para o património:
- Commodificação: reduzir uma tradição viva a um produto concebido para agradar aos turistas, em vez de servir a comunidade. Resultado: autenticidade encenada – «espetáculos» que parecem tradições, mas que perderam o seu significado. •
- Turismo excessivo: o número excessivo de visitantes prejudica tanto os locais físicos (Veneza, Machu Picchu, Dubrovnik) como o tecido social. Quando os turistas superam em número os residentes, a vida comunitária é prejudicada.
- Perda de tradições vivas: quando um ofício se transforma numa indústria de lembranças, o conhecimento original pode perder-se. Exemplo: objetos «tradicionais» produzidos em massa que substituem os autênticos produtos artesanais.
- Homogeneização: o património é apresentado de forma a satisfazer as expectativas dos turistas internacionais, apagando a especificidade local.
- Fuga económica: os lucros saem da comunidade através de operadores turísticos, cadeias hoteleiras e plataformas online que não são de propriedade local.
O equilíbrio: O turismo patrimonial sustentável coloca a comunidade no centro. Garante que:
- 1. A comunidade beneficia economicamente.
- 2. A comunidade controla o que é apresentado e de que forma.
- 3. O próprio património não é esgotado nem distorcido.
- 4. Os turistas vivem uma experiência genuína e significativa.
Ecomuseologia: um modelo de turismo patrimonial liderado pela comunidade. Os museus tradicionais retiram os objetos do seu contexto e expõem-nos aos visitantes. Os ecomuseus fazem o contrário: mantêm o património no seu território e envolvem a comunidade na sua gestão e interpretação.
O Ecomuseu Batana, em Rovinj, é um dos principais exemplos desta abordagem na Europa. Princípios fundamentais da ecomuseologia:
- O património mantém-se no local – o barco, o estaleiro e o bairro dos pescadores permanecem em Rovinj. • A comunidade é a curadora – os pescadores e residentes locais participam ativamente nas exposições e nos workshops.
- O próprio território é o museu – as visitas guiadas levam os visitantes pelas ruas históricas da cidade e até ao mar.
- São demonstradas competências da vida quotidiana – oficinas sobre reparação de redes, trançamento de cordas e construção de barcos. • A interpretação é multilingue e inclusiva – exposições no dialeto de Rovinj, em croata e em italiano.
Estudos de caso
Ecomuseu de Batana (Rovinj) – uma iniciativa liderada pela comunidade que preserva as tradições marítimas através de práticas participativas.
O Ecomuseu Batana (fundado em 2004) é o primeiro ecomuseu da Croácia e um modelo reconhecido internacionalmente de preservação do património com base na comunidade. Protege a «batana» — um barco de pesca tradicional de fundo plano, exclusivo de Rovinj — e as tradições marítimas associadas à cidade.
Reconhecimento: Inscrito no Registo da UNESCO das Melhores Práticas para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Componentes do museu:
- Casa Batana – um centro de documentação e interpretação instalado num edifício tradicional de Rovinj do século XVII; exposições multimédia, gravações audiovisuais, arquivo de histórias de pescadores e música (bitinada).
- Estaleiro Mali Škver – estaleiro de construção naval em atividade, onde se constroem novos barcos «batana» utilizando técnicas tradicionais; os visitantes podem observar e participar.
- Regatas e festivais temáticos – a Regata de Barcos Tradicionais de Rovinj; o património vivo em ação no mar.
- Passeios a pé e no mar – percursos guiados pelo bairro histórico dos pescadores; uma experiência que permite conhecer de perto a cultura marítima.
Modelo económico: As receitas provenientes da venda de bilhetes, de eventos culturais, do restaurante tradicional (Associação Batana House) e do artesanato sustentam o funcionamento e a inovação do museu. Uma loja de recordações promove o artesanato local.
Impacto social: Oficinas sobre técnicas tradicionais (reparação de redes, trançado de cordas); atividades culturais organizadas pelo Centro de Artes Visuais Batana; transmissão intergeracional através de festivais comunitários. Os pescadores e residentes locais participam na curadoria das exposições.
Inovação digital: as aplicações móveis e as visitas virtuais melhoram a acessibilidade para públicos de todo o mundo; os arquivos digitais preservam as histórias orais e os conhecimentos sobre a construção naval para as gerações futuras.
Parcerias: Membro das redes europeias de património marítimo; projetos «Adriatic PorTLand» e «Sea Beyond» (sustentabilidade oceânica e educação).
Antiga Aldeia de Kumrovec (Croácia) – um museu etnográfico ao ar livre que preserva a arquitetura e o artesanato, promovendo simultaneamente a identidade local.
Staro Selo Kumrovec é um museu etnográfico ao ar livre situado em Hrvatsko Zagorje, no noroeste da Croácia, que preserva a arquitetura rural e o artesanato tradicional do final do século XIX e início do século XX.
Contexto:
A região é conhecida pela sua arquitetura vernácula (casas tradicionais de madeira e pedra) e pelos seus costumes rurais. O museu restaurou edifícios agrícolas autênticos, oficinas de artesanato e espaços domésticos para criar uma representação viva da vida rural da região.
Principais características:
- Demonstrações e aulas de artesanato tradicional: tecelagem, ferreiro, olaria.
- Oficinas interativas: «Flores de papel», «Fabrico de pentes», «Do grão ao pão», «Os ovos de Páscoa da minha avó», «Cria a tua própria boneca» – concebidas para famílias, escolas e grupos comunitários.
- Centro de Artesanato e Competências Tradicionais (fundado em 2007): recupera ofícios em risco de extinção através da educação e do desenvolvimento económico.
- Projeto CRAFTATTRACT: transforma o artesanato tradicional em ativos económicos; colaborações com o Fórum das Culturas Eslavas e a Croatia Nostra.
- Lembranças: brinquedos tradicionais, cerâmica, figuras de pão de gengibre – ligação económica entre o artesanato e o turismo.
Impacto económico: Milhares de visitantes por ano; aumento da procura por alojamento local, produtos artesanais e serviços de hospitalidade; renascimento do artesanato como recurso económico.
Impacto social: Oficinas comunitárias que envolvem famílias locais, escolas e grupos comunitários; criação de laços intergeracionais; orgulho cultural e sentido de pertença; sustentabilidade a longo prazo das tradições. Desafio da autenticidade: À medida que o número de visitantes cresce, o museu enfrenta o dilema clássico – como manter a autenticidade das práticas tradicionais, ao mesmo tempo que responde ao crescente interesse turístico. A resposta do museu: uma programação interativa e centrada na educação, que mantém a comunidade no centro da interpretação
Aplicações:
Atividade 1 – Mapa de tipologia do património (Componente 01, Individual/15 min)
Escolha um local de património ou uma tradição da sua própria região (ou utilize Batana / Kumrovec). Crie uma tipologia visual que classifique os seus elementos:
• Quais são os bens móveis corpóreos? Quais são os bens imóveis corpóreos? Quais são os bens incorpóreos?
• Que elementos correm o risco de se perder?
• Que elementos atraem os turistas e quais são invisíveis para os turistas? Apresente a sua tipologia sob a forma de uma tabela ou de um diagrama simples.
Atividade 2 – Perspetivas da comunidade vs. perspetivas dos turistas (Componente 02, em pares/15 min)
Leia novamente os dois estudos de caso. Elabore um breve guia de entrevista (5 perguntas) que utilizaria para entrevistar:
a) um pescador local no Ecomuseu da Batana, e
(b) um turista que visita o museu.
Que perguntas permitiriam perceber as diferentes formas como valorizam o património? Em que pontos poderão estar de acordo? Em que pontos poderão discordar?
Atividade 3 – Redesenhar um material promocional (Componente 03, em grupo, 20 min)
Procura um folheto turístico ou um site oficial de um local de património no teu país (ou utiliza o site de Kumrovec: https://www.mss.mhz.hr/en/stranica/omuzeju).
Identifique: Que elementos do património são destacados? Quais são os que ficam por destacar? Que narrativa é construída? Redesenhe uma secção (uma única página ou a página inicial) de forma a incluir: uma voz da comunidade, um elemento do Património Imaterial da Humanidade que ainda não tenha sido mencionado e uma mensagem sobre sustentabilidade.
Atividade 4 – Avaliação da Sustentabilidade (Componente 05, Individual/trabalho de casa)
Escolha UM dos exemplos de excesso de turismo abordados no Capítulo 4. Escreva 200 palavras: Que património (material e imaterial) está a ser ameaçado? Que medidas foram tomadas? Que mais se poderia fazer? Aplique o «modelo de equilíbrio» desta lição: benefício económico + controlo da comunidade + integridade do património
Questões para reflexão
- De que forma é que o turismo redefine o significado do património?
- Que riscos surgem quando o património é encarado principalmente como um «produto»?