Curso em língua portuguesa

Lição 3: Envolvimento da comunidade e agência local

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Imagina que uma equipa de arquitetos, consultores de turismo e responsáveis governamentais decida «preservar» o património do teu bairro. Documentam os edifícios, traçam um percurso turístico e inauguram um centro de património. Ninguém perguntou à tua família o que valorizas, o que praticas ou o que queres que as futuras gerações recordem. Será que aquilo que eles preservaram é realmente o teu património?


PARTE A – PORQUE É QUE A PARTICIPAÇÃO DA COMUNIDADE NÃO É OPCIONAL

O património não reside em edifícios, objetos ou arquivos. Reside nas pessoas – nas escolhas que as comunidades fazem todos os dias sobre o que praticar, ensinar, transmitir e proteger. No momento em que uma comunidade deixa de reconhecer uma tradição como sua, essa tradição deixa de ser património vivo e passa a ser um registo histórico.

É por isso que a Convenção da UNESCO de 2003 colocou as comunidades no centro absoluto da salvaguarda do Património Imaterial. O artigo 15.º estabelece que os Estados Partes devem «envidar esforços para assegurar a mais ampla participação possível das comunidades, dos grupos e, quando apropriado, dos indivíduos que criam, mantêm e transmitem esse património». Isto não é uma mera cortesia. É a própria definição do que torna algo património, em primeiro lugar.

A autonomia da comunidade significa mais do que participação. Significa controlo: sobre o que é documentado, o que é promovido, o que é mostrado aos visitantes, o que é mantido em sigilo e como são distribuídos os recursos gerados pelo turismo patrimonial. Quando as comunidades têm autonomia, o turismo patrimonial é uma ferramenta de autodeterminação. Quando não a têm, é uma forma de exploração.

Três coisas que acontecem quando falta a autonomia da comunidade:

Deturpação: Curadores externos, operadores turísticos ou organismos governamentais apresentam versões simplificadas, romantizadas ou politicamente convenientes do património de uma comunidade. A complexidade, os conflitos e as tensões atuais são apagados. O património exposto já não reflete a comunidade que o criou.

Exclusão dos benefícios: As receitas do turismo revertem para operadores externos. A comunidade disponibiliza o património; outros lucram com isso. Os membros da comunidade podem trabalhar em empregos no setor dos serviços com salários baixos, enquanto o excedente económico sai do território.

Perda acelerada: Sem o investimento da comunidade numa tradição — sem o orgulho, a prática e o desejo intergeracional de a manter — o património deteriora-se mais rapidamente, e não mais lentamente. A gestão externa não pode substituir o cuidado da comunidade.


PARTE B – MÉTODOS DE ENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE

1. Mapeamento participativo do património

O mapeamento participativo reúne residentes, investigadores locais, profissionais e decisores políticos para identificar e documentar aquilo que a comunidade valoriza — e não aquilo que os especialistas ou os turistas supõem que ela valoriza. O resultado é um mapa do património que inclui não só locais físicos (igrejas, edifícios históricos, oficinas), mas também práticas imateriais: canções entoadas em épocas específicas do ano, percursos percorridos para rituais sazonais, espaços onde se ensinam ofícios específicos.

O que o torna participativo é o processo: os membros da comunidade lideram ou co-lideram o mapeamento. São eles que decidem o que deve constar no mapa. São eles que definem as categorias. O documento final pertence à comunidade, e não à instituição que iniciou o exercício.

No modelo pedagógico do INTHRACE (Componente 02), o mapeamento participativo é uma atividade central: os alunos concebem «mapas participativos do património que contrastam o património valorizado pela comunidade com aquele que atrai turistas». Este contraste é, por si só, revelador. A discrepância entre o que as comunidades valorizam e o que o turismo promove indica onde residem os riscos mais significativos de distorção.

2. Cocriação de narrativas sobre o património

Cada local de património conta uma história. A questão é: quem decide qual a história, com as palavras de quem e na perspetiva de quem?

A cocriação de narrativas significa que é a comunidade — e não apenas os intérpretes profissionais do património, os curadores ou as agências de marketing — que define a forma como as suas tradições são explicadas e apresentadas. Isto implica:

  • Recolha de testemunhos orais e validação pela comunidade antes de qualquer publicação ou divulgação.
  • Apresentação multilingue e com múltiplas vozes, que inclui línguas minoritárias, testemunhos de idosos e memórias contestadas, a par das narrativas oficiais.
  • Revisão pela comunidade dos materiais interpretativos (brochuras, textos de exposições, conteúdo do site) antes da sua divulgação ao público.
  • Direitos permanentes: a comunidade mantém o direito de rever, atualizar ou retirar narrativas à medida que a sua relação com o património evolui.

No Eco-Museu Batana, as exposições multimédia do museu foram criadas a partir de gravações, testemunhos e materiais fornecidos pelas famílias de pescadores de Rovinj. As exposições são apresentadas no dialecto de Rovinj, a par do croata e do italiano. A música «bitinada» dos pescadores é documentada pela própria comunidade e apresentada nas suas próprias palavras. O resultado é uma narrativa que os visitantes reconhecem como genuína, precisamente porque não foi simplificada para lhes facilitar a compreensão.

3. Governação das instituições do património liderada pela comunidade

A forma mais avançada de envolvimento da comunidade é a governação: comunidades que não se limitam a contribuir para as instituições do património, mas que as gerem efetivamente.

O Ecomuseu da Batana é gerido pela Associação Casa da Batana, uma organização comunitária. Os pescadores e residentes locais participam nas decisões relativas à programação, exposições, eventos e parcerias. O museu está formalmente integrado na comunidade, em vez de ser uma instituição estatal que por acaso se encontra localizada nesse local.

O Centro de Artesanato e Competências Tradicionais de Kumrovec (fundado em 2007) envolve os artesãos locais não como artistas ou demonstradores contratados pelo museu, mas como participantes ativos na definição dos ofícios a preservar, da forma como são ensinados e da forma como se articulam com a economia local em geral.

4. A transmissão intergeracional como forma de envolvimento comunitário

A forma mais direta de envolvimento da comunidade no património é a transmissão: passar competências, histórias e práticas de uma geração para a seguinte. É isso que faz com que o património seja vivo, em vez de ficar apenas arquivado.

Ambos os estudos de caso apostam fortemente em programas intergeracionais:

Batana: Os festivais comunitários, as regatas e a construção naval no estaleiro Mali Škver proporcionam oportunidades regulares para que os jovens residentes de Rovinj entrem em contacto com as tradições marítimas. O centro de artes visuais aproxima os membros mais jovens da comunidade às expressões culturais da vida marítima.

Kumrovec: Oficinas como «Os Ovos de Páscoa da Minha Avó», «Do Grão ao Pão» e «Cria a Tua Própria Boneca» são deliberadamente concebidas para criar momentos de transmissão de conhecimento entre gerações. Os avós ensinam os netos; as escolas colocam as crianças em contacto com artesãos. O museu funciona como um espaço estruturado para essa transmissão, que talvez não ocorra de forma natural na vida familiar contemporânea.

Esta é uma constatação crucial: em muitas comunidades, as instituições do património desempenham agora uma função de transmissão que, anteriormente, estava enraizada na vida quotidiana. À medida que a urbanização, a migração e a cultura digital alteram a forma como as famílias passam tempo juntas, as instituições do património tornam-se locais onde o contacto intergeracional em torno de práticas partilhadas é deliberadamente promovido.

Espectáculo de folclore do Jubileu — Zagreb

PARTE C – ESTUDOS DE CASO EM ORGANIZAÇÕES COMUNITÁRIAS

Ecomuseu de Batana: os pescadores como curadores

Quando o Ecomuseu de Batana foi criado em 2004, o seu princípio fundamental era que o museu seria construído pela comunidade de Rovinj, e não para ela. Os pescadores locais não foram contratados para demonstrar técnicas tradicionais aos turistas. Foram convidados a ser coautores da instituição.

Na prática, isto significa:

  • Os pescadores e os residentes participam ativamente na organização das exposições.
  • Organizam e dirigem as regatas temáticas e os eventos culturais.
  • Organizam workshops sobre técnicas tradicionais — reparação de redes, trançamento de cordas — tanto para membros da comunidade como para visitantes interessados.
  • O Centro de Artes Visuais Batana envolve os membros da comunidade na programação cultural ao longo do ano.
  • O museu documenta e preserva a história oral da comunidade, as histórias familiares e a tradição musical da «bitinada» através de gravações fornecidas pelos próprios membros da comunidade.

O resultado é uma instituição que a comunidade de Rovinj reconhece como sua. É este reconhecimento — e não a inscrição na UNESCO, nem os prémios internacionais de turismo, nem o número de visitantes — que sustenta o museu. É também isso que o torna um modelo replicável: outras comunidades podem aprender com o Batana, não o conteúdo específico (as suas tradições marítimas são únicas), mas sim a abordagem de gestão.

Kumrovec: os artesãos como educadores

No Staro Selo Kumrovec, o envolvimento dos artesãos locais vai além da simples demonstração de habilidades. Tecelões, ferreiros e oleiros participam no museu não como funcionários que demonstram as suas habilidades aos visitantes, mas sim como educadores com conhecimentos para transmitir. O museu fornece a infraestrutura e o público; os artesãos fornecem a experiência e a autoridade.

O modelo de oficina interativa em Kumrovec foi concebido com base numa convicção pedagógica específica: o património transmite-se melhor através da prática, e não da observação. Os visitantes e os participantes da comunidade não ficam a observar um tecelão; sentam-se num tear. Não observam a confeção do pão; amassam a massa. Esta abordagem prática cumpre duas funções simultaneamente. Para os visitantes, cria uma experiência autêntica e memorável. Para a comunidade, cria ocasiões regulares para praticar e, consequentemente, manter a competência.

O projeto CRAFTATTRACT alargou esta lógica ao desenvolvimento económico, ligando os artesãos locais aos mercados internacionais e a parceiros institucionais (Fórum das Culturas Eslavas, Croatia Nostra). Os artesãos cujo trabalho se encontrava economicamente marginalizado encontraram novos mercados. O seu conhecimento tornou-se um ativo económico reconhecido para além da região.

ATIVIDADES

Atividade 1 – Conceber um exercício de mapeamento participativo (Individual ou em pares | 20 min)
Foi-lhe pedido que ajudasse uma comunidade da sua região a identificar o seu património imaterial antes do início de um novo projeto de desenvolvimento turístico.
Conceba uma sessão de mapeamento participativo: Quem convidaria? Que perguntas lhes faria? Como recolheria a informação (entrevista, discussão em grupo, passeio pelo bairro, exercício de desenho)? Como seria o mapa final?
Escreva um breve plano de facilitação (150 palavras) e esboce as categorias que o seu mapa utilizaria.

Atividade 2 – Análise narrativa (Em grupo | 20 min)
Escolham qualquer site, folheto ou texto de exposição relacionado com o turismo patrimonial (pode ser o site do Eco-Museu da Batana, a página de Kumrovec ou um site do vosso próprio país).
Realizem uma análise narrativa:

  • Quais são as vozes que estão presentes? Quais são as que estão ausentes?
  • O que é considerado património? O que fica de fora?
  • Que tipo de linguagem é utilizada – qual é o público-alvo a que se destina?
  • A comunidade é retratada como um agente ativo ou como um sujeito passivo?
    Apresente as suas conclusões à turma e proponha duas alterações específicas que tornariam a narrativa mais centrada na comunidade.

Atividade 3 – Proposta de Envolvimento da Comunidade (Grupo | 20 min)
Uma autarquia local pede ao vosso grupo que preste aconselhamento sobre uma nova iniciativa de turismo patrimonial em torno de um ofício tradicional (são vocês a escolher o ofício e a região).
Elabore uma breve proposta (200 palavras) que responda às seguintes questões: De que forma é que a comunidade será envolvida na gestão, e não apenas na programação? Como é que a transmissão intergeracional será integrada na iniciativa? Como é que as receitas serão repartidas? O que acontece se a comunidade quiser retirar-se ou alterar a iniciativa daqui a cinco anos?


PERGUNTAS PARA REFLEXÃO

  • Por que razão devem ser as comunidades a assumir a liderança na interpretação do património, em vez de curadores profissionais, entidades de turismo ou governos?
  • Que riscos surgem quando o património é apresentado exclusivamente para os turistas — mesmo quando isso é feito de forma adequada e respeitosa?
  • Existe alguma diferença entre uma comunidade que opta por apresentar o seu património aos turistas e uma comunidade que é obrigada a fazê-lo? O consentimento altera o significado da autenticidade encenada?
  • Em Batana, a comunidade preserva a tradição e, ao mesmo tempo, beneficia do turismo. Em Kumrovec, os artesãos tornam-se educadores e agentes económicos. Vê alguma tensão nestas dinâmicas? Que medidas de salvaguarda implementaria?
  • Será que um investigador externo, um profissional de museus ou um promotor turístico pode alguma vez ser um verdadeiro parceiro na gestão do património liderada pela comunidade — ou estarão sempre, em certa medida, a impor uma agenda externa?
  • Pense numa prática cultural da sua própria comunidade que, atualmente, não seja reconhecida nem promovida. Como seria um processo genuinamente liderado pela comunidade para a dar a conhecer ao público?

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