Por que razão inovar na salvaguarda do património?
O património cultural imaterial (PCI) é frágil. Depende das pessoas que o praticam e, quando as comunidades diminuem ou os jovens emigram, as tradições podem desaparecer silenciosamente. A salvaguarda, por isso, requer novos métodos: não apenas arquivos e listas, mas também ferramentas tecnológicas e mapeamento participativo que liguem o património à sociedade atual.
A inovação não substitui a tradição – antes, apoia-a. Ao combinar métodos digitais, participação da comunidade e resultados criativos, podemos conferir nova visibilidade e valor ao património vivo.
A tecnologia e o conceito de «gémeo digital»
Uma das principais inovações é o conceito de «gémeo digital» — uma reprodução digital detalhada de uma arte, de uma atuação ou de um ritual.
- Exemplo: a técnica da pasta de tecido de Yangxin, na China, foi documentada passo a passo, para que as gerações futuras possam aprender o processo de forma digital. (Leia o artigo: Li, M., Xu, S., Tang, J. et al. (2024) Conceção e investigação de uma plataforma de gémeo digital para o património cultural imaterial do artesanato — «Yangxin Cloth Paste». Herit Sci 12, 43 (2024).
- Exemplo: as danças podem ser captadas através de sensores de movimento, preservando cada gesto para fins de análise e ensino.
Tecnologias como a Realidade Virtual (RV) e a Realidade Aumentada (RA) podem recriar contextos perdidos, enquanto os jogos digitais e as aplicações integram as tradições na aprendizagem quotidiana do público mais jovem.
Um exemplo é o projeto HEAT-XR, no qual participa a Universidade da Transilvânia de Brașov, que explora a utilização de tecnologias de Realidade Alargada (XR) para apoiar a documentação, a preservação e a divulgação do património cultural.
💡 Mas lembra-te: uma cópia digital não consegue captar totalmente o espírito de uma atuação ao vivo. O desafio consiste em utilizar a tecnologia como um apoio, e não como um substituto.
Mapeamento do património: o projeto CarPaTO
Um exemplo marcante de inovação na área da proteção é o projeto CarPaTO, realizado entre 2018 e 2019 na região de Făgăraș (Țara Făgărașului), na Roménia.
O objetivo: identificar, documentar e promover o Património Cultural Imaterial (PCI) local, envolvendo a comunidade.
Métodos utilizados:
- Trabalho de campo e entrevistas com anciãos, artesãos e artistas.
- Criação de uma base de dados digital sobre tradições.
- Organizar workshops participativos com os residentes para identificar os elementos importantes.
Resultados obtidos:
- Um conjunto de percursos culturais que ligam aldeias e paisagens a tradições vivas.
- Uma exposição pública de artesanato, objetos e conhecimentos.
- Um livro de receitas que reúne receitas e o património culinário.
- Um «cellphilm» – um curta-metragem participativo, criado com membros da comunidade utilizando tecnologia simples, para contar as suas próprias histórias.
O projeto demonstra como o mapeamento pode ir além da documentação para criar ferramentas úteis para o turismo, a educação e a identidade.
Por que é que o mapeamento é importante?
Mapeamento do PCI:
- Sensibiliza a comunidade para as tradições locais.
- Reforça a identidade ao criar uma ligação entre as pessoas e o local.
- Cria oportunidades na área da educação e do turismo sustentável.
- Torna as tradições visíveis de formas criativas e acessíveis.
Neste sentido, o CarPaTO demonstra que a salvaguarda não consiste em congelar as práticas do passado, mas sim em dinamizá-las para o presente e para o futuro.
Exercícios e aplicações
Exercícios e aplicações (Modelo Pedagógico INTHRACE — Componente 05: Práticas Sustentáveis, Componente 06: Tecnologia e Inovação)
- Exercício 1 — Tabela de mapeamento do património (Componente 05): Escolha uma tradição da sua comunidade e preencha a tabela: nome do elemento; quem a pratica; contexto (quotidiano, ritual, festival); modo de transmissão; importância para a identidade.
- Exercício 2 — Plano de resgate do «Património Cultural Imaterial (PCI) em risco» (Componente 05): A partir do Exemplo de Aplicação do INTHRACE para o Capítulo 3: identifique um elemento do PCI na sua região que esteja em risco devido a uma classificação inadequada (por exemplo, uma prática híbrida que não se enquadra em nenhum domínio específico da UNESCO e, por isso, não recebe qualquer proteção). Analise de que forma esta simplificação excessiva contribui para a sua perda. Elabore um plano de resgate de uma página: intervenientes envolvidos, ações imediatas, salvaguarda a médio prazo, quadro de classificação a utilizar (recomenda-se o modelo de três camadas de Fredheim & Khalaf).
- Exercício 3 — Gémeo digital multidomínio para uma tradição de tecelagem em vias de extinção (Componentes 05 + 06): Retirado diretamente do Exemplo de Aplicação do INTHRACE para o Capítulo 3: conceba um gémeo digital multidomínio para uma tradição específica de tecelagem em vias de extinção na sua região (ou para a tecelagem de tapetes de parede romenos, já incluída na lista da UNESCO). Especifique o que regista (imagens, áudio, texto, gestos), de que forma o registo capta vários domínios do Património Cultural Imaterial (PCI) em simultâneo (artesanato + transmissão oral + conhecimento dos materiais), quem é o titular dos dados e como a comunidade está envolvida em cada etapa. Associe isto ao modelo «Yangxin Cloth Paste» de Li et al. (2024), discutido na aula.
- Exercício 4 — Ideia de «cellphilm» (Componente 06): Conceba um projeto de vídeo curto (2–3 minutos) que documente uma tradição local. Decida: quem irá aparecer no filme? Que história irá contar? Como é que a comunidade irá participar? Inspirado diretamente na metodologia «cellphilm» do CarPaTO.
- Exercício 5 — Conceção de um percurso cultural (Componente 05): Imagine um pequeno percurso com 3 a 4 paragens na sua região, que ligue tradições, paisagens e artesanato. Explique de que forma esse percurso contaria uma história sobre a identidade local. Referência: a metodologia de percursos CarPaTO.
- Exercício 6 — Desafio de classificação com IA generativa (Componente 06): Retirado diretamente do Exemplo de Aplicação do INTHRACE para o Capítulo 3: utilize uma ferramenta de IA generativa disponível gratuitamente para classificar três elementos do património imaterial da sua região. Compare a classificação da IA com os cinco domínios da UNESCO. Em que pontos a IA concorda? Em que pontos diverge? O que é que isto nos diz sobre a abordagem de atenção multimodal de Fan et al. (2023) à classificação do Património Imaterial?
- Exercício 7 — Exposição digital com etiquetagem múltipla (Componente 06): A partir do Exemplo de Aplicação do INTHRACE: crie um protótipo de uma pequena exposição digital (um slide, uma página web ou uma publicação nas redes sociais) para um elemento do Património Cultural Imaterial (PCI) que permita a multietiquetagem — ou seja, o mesmo elemento é etiquetado com vários domínios da UNESCO e vários valores de Fredheim & Khalaf. Discuta: será que os utilizadores procurariam realmente um elemento sob todas essas etiquetas?
Questões para reflexão
- De que forma é que a tecnologia pode reforçar a proteção sem substituir a prática no terreno?
- Será que a digitalização torna as tradições mais acessíveis ou mais vulneráveis a serem vistas como «entretenimento»?
- De que forma o mapeamento do património altera a forma como as comunidades se percebem a si próprias?
- Qual dos resultados do CarPaTO (base de dados, livro de receitas, percursos, exposição, cellphilm) considera mais eficaz e porquê?