Veneza tem 250 000 habitantes e recebe mais de 20 milhões de turistas por ano. Machu Picchu foi construída para uma comunidade de alguns milhares de pessoas e recebe agora mais de 1,5 milhões de visitantes por ano. Em que momento é que o turismo deixa de valorizar o património e começa a consumi-lo?
PARTE A – A DIMENSÃO ECONÓMICA: O PATRIMÓNIO COMO RECURSO
O turismo patrimonial é um dos segmentos do turismo mundial que mais cresce. Quando bem gerido, cria valor genuíno para as comunidades – e não apenas para os visitantes.
Como o turismo gera valor económico a partir do património:
As taxas de entrada, as visitas guiadas e os eventos culturais geram receitas diretas para as instituições do património. O Eco-Museu Batana, em Rovinj, por exemplo, financia o seu trabalho de preservação, o desenvolvimento do arquivo digital e as oficinas comunitárias através das receitas provenientes da venda de bilhetes, do restaurante tradicional «Batana House» e de eventos culturais. As receitas permanecem na região, uma vez que o modelo é detido e gerido pela comunidade.
Os efeitos económicos indiretos são igualmente importantes. Os visitantes que vêm para conhecer o património gastam dinheiro em alojamento local, gastronomia e artesanato. O Museu da Aldeia Antiga de Kumrovec impulsionou um aumento da procura por pensões locais, produtos artesanais e serviços de agroturismo em Hrvatsko Zagorje. Através do projeto CRAFTATTRACT, o artesanato tradicional (tecelagem, olaria, confeção de pão de gengibre) tornou-se comercialmente viável e um ativo económico reconhecido internacionalmente.
O emprego é um benefício fundamental. O Eco-Museu de Batana emprega a população local como guias, animadores de oficinas, construtores de barcos e educadores culturais. O Kumrovec envolve diretamente os artesãos locais em demonstrações e programas interativos. Em ambos os casos, o emprego assenta num conhecimento cultural genuíno – não se trata de trabalho genérico na área da hotelaria.
Os riscos económicos: fuga de receitas, dependência e desigualdade
Os benefícios económicos não são partilhados automaticamente. A «fuga de receitas do turismo» ocorre quando os lucros saem da comunidade através de cadeias hoteleiras de propriedade internacional, operadores turísticos e plataformas online. O património de uma comunidade é consumido; a própria comunidade vê poucos benefícios.
A dependência de um único setor constitui outro risco. As comunidades que se tornam demasiado dependentes do turismo patrimonial ficam vulneráveis a quedas repentinas no número de visitantes (pandemias, instabilidade política, fenómenos climáticos). O período da COVID-19 pôs em evidência esta fragilidade a nível global.
A gentrificação constitui o terceiro grande risco económico. À medida que as zonas patrimoniais se tornam mais atrativas, os preços dos imóveis aumentam, os negócios locais são substituídos por lojas orientadas para o turismo e os residentes são gradualmente afastados. Os centros históricos das cidades por toda a Europa demonstram este padrão. O património que, inicialmente, atraiu os visitantes — a comunidade viva, as práticas do quotidiano — desaparece.
PARTE B – A DIMENSÃO CULTURAL E SOCIAL: A IDENTIDADE ENTRE A PRESERVAÇÃO E A INTERPRETAÇÃO
Quando o turismo reforça a cultura
Nas condições certas, o turismo pode reforçar a identidade cultural. Quando a comunidade controla a forma como o seu património é interpretado e apresentado, o turismo torna-se motivo de orgulho. Os visitantes funcionam como público para as práticas que a comunidade pretende preservar.
No Eco-Museu de Batana, os pescadores e residentes locais são co-curadores ativos das exposições. São eles que contam as suas próprias histórias e definem os termos da interpretação. As oficinas sobre reparação de redes, trançamento de cordas e música bitinada não são espetáculos encenados para turistas – são transmissões genuínas de competências vivas, tanto para os participantes locais como para os visitantes interessados. É a isto que os estudiosos chamam turismo endógeno: turismo que surge de dentro da comunidade, em vez de ser imposto a partir do exterior.
Em Kumrovec, oficinas como «Do Grão ao Pão» e «Os Ovos de Páscoa da Minha Avó» são concebidas explicitamente para famílias locais e grupos escolares, e não apenas para turistas. O turismo patrimonial nesta região promove a transmissão intergeracional; dá à comunidade um motivo para se reunir em torno de práticas comuns.
Quando o turismo distorce a cultura: mercantilização e autenticidade encenada
A mercantilização ocorre quando uma tradição viva é transformada num produto concebido para satisfazer as expectativas dos turistas, em vez de servir a comunidade que a criou. O resultado é o que o sociólogo Dean MacCannell (1973) designou por «autenticidade encenada»: o património é apresentado aos visitantes, mas essa apresentação já não reflete a prática genuína da comunidade.
Sinais de autenticidade encenada:
- Artesanato tradicional produzido em massa por fabricantes não locais e vendido como «autêntico».
- Trajes folclóricos usados apenas quando chegam grupos de turistas.
- Rituais encurtados, simplificados ou adaptados para se adequarem aos horários ou às sensibilidades dos turistas.
- Os habitantes locais desempenham «papéis tradicionais» que já não correspondem à forma como vivem na realidade.
O paradoxo: quanto mais o turismo consegue atrair visitantes, maior é a pressão para simplificar, padronizar e transformar o património num produto pronto a consumir. O sucesso cria as condições para a perda.
Tensões sociais: deslocamento e a «bolha turística»
Quando o turismo atinge uma massa crítica numa zona patrimonial, cria o que os investigadores designam por «bolha turística» — uma zona reorganizada em função das necessidades dos visitantes, onde a vida local se torna cada vez mais marginal. Os preços sobem; as lojas locais fecham; os vizinhos tornam-se estranhos.
Veneza é o caso mais estudado deste processo. Mais de 20 milhões de turistas por ano numa cidade com 250 000 habitantes criaram condições em que os locais sentem que estão a viver num parque temático. Mais de 1 000 residentes abandonam Veneza todos os anos. A comunidade viva que confere à cidade o seu carácter autêntico está a ser substituída por um espetáculo patrimonial orquestrado.
Dubrovnik, com o seu centro histórico classificado pela UNESCO, enfrenta pressões semelhantes. A cidade introduziu limites diários ao número de visitantes, restringiu as chegadas de navios de cruzeiro e limitou as licenças do Airbnb — todas estas medidas constituem respostas ao deslocamento dos residentes e à erosão da vida comunitária.
Machu Picchu demonstra que o património natural e o património construído enfrentam as mesmas pressões. A erosão do solo, os danos nos caminhos e a degradação do local devido ao intenso tráfego pedonal levaram à imposição de limites diários rigorosos ao número de visitantes. No entanto, a aplicação destas medidas é irregular e o impacto cumulativo continua.
PARTE C – MODELOS DE EQUILÍBRIO: COMO É O TURISMO SUSTENTÁVEL DO PATRIMÓNIO?
Nem todo o turismo patrimonial gera estes resultados negativos. Os casos de Batana e Kumrovec mostram como é um modelo diferente.
Princípios do turismo patrimonial sustentável:
- Propriedade e controlo comunitários: as decisões sobre o que é exibido, como, a quem e a que preço continuam a ser da competência da comunidade. Os operadores externos são parceiros, não diretores.
- Limites: os locais sustentáveis estabelecem limites à capacidade de visitantes que protegem tanto o património físico como o tecido social da comunidade anfitriã.
- Reinvestimento das receitas: uma parte significativa das receitas do turismo é reinvestida na preservação, na educação e no desenvolvimento comunitário – não é simplesmente retirada.
- O património vivo em primeiro lugar: a relação da comunidade com o seu património tem prioridade sobre a conceção da experiência turística. A tradição sobrevive à época turística.
- Uma interpretação que tem em conta a complexidade: o turismo patrimonial sustentável não simplifica nem romantiza. Apresenta o património no seu contexto completo – incluindo a história difícil, as tensões atuais e a mudança.
O modelo eco-museológico praticado em Batana incorpora a maioria destes princípios. O museu não retira o barco «batana» de Rovinj para o expor num museu nacional em Zagreb. Mantém o barco, o estaleiro, os pescadores e a comunidade juntos – e convida os turistas a fazer parte desse todo vivo.
ATIVIDADES
Atividade 1 – Análise de Impacto (Individual | 20 min)
Escolha um local de turismo patrimonial (pode escolher Batana, Kumrovec, Veneza, Machu Picchu, Dubrovnik ou um local do seu próprio país).
Identifique: um impacto económico positivo concreto e um impacto cultural ou social negativo concreto.
Proponha UMA medida de gestão específica que possa reduzir o impacto negativo sem eliminar o benefício económico.
Apresente os resultados numa tabela estruturada: Local | Impacto positivo | Impacto negativo | Medida proposta | Justificação.
Atividade 2 – Detecção de autenticidade encenada (Em pares | 15 min)
Navegue no site oficial de turismo de um local patrimonial do seu país (ou no museu de Kumrovec: https://www.mss.mhz.hr/en/stranica/o-muzeju).
Resposta: Que elementos da apresentação parecem autênticos (orientados para a comunidade, complexos, honestos quanto aos desafios)? Quais parecem encenados (simplificados, idealizados, concebidos exclusivamente para atrair turistas)?
Partilhem as vossas conclusões com outro par e discutam: como é que distinguem a diferença?
Atividade 3 – Resumo de políticas sobre sustentabilidade (Grupo | 25 min)
O vosso grupo presta consultoria a uma pequena cidade costeira croata. A Câmara Municipal pretende desenvolver o turismo patrimonial em torno de uma antiga tradição piscatória. Redijam um resumo de políticas com 200 palavras que aborde:
- Que oportunidades económicas se devem aproveitar (e quais se devem evitar).
- Um risco cultural contra o qual é necessário proteger-se especificamente.
- Um mecanismo concreto de envolvimento da comunidade.
- Um limite ou restrição que recomenda que o conselho estabeleça.
Faça referência ao modelo Batana e a, pelo menos, um princípio da Parte C desta lição.
PERGUNTAS PARA REFLEXÃO
- Será que o turismo patrimonial pode alguma vez ser «demasiado bem-sucedido»? Como seriam, na prática, os sinais de alerta?
- Como é que distinguimos entre tradição autêntica e encenação – e será que importa se os visitantes não conseguem perceber a diferença?
- Quem deve decidir como o património de uma comunidade é apresentado aos turistas: a própria comunidade, o município, a autoridade nacional responsável pelo património ou a procura do mercado?
- O caso de Veneza será um fracasso das políticas, um fracasso do mercado ou um resultado inevitável da tentativa de tornar o património acessível? O que teria feito de diferente?
- O Ecomuseu de Batana é reconhecido internacionalmente como um modelo de boas práticas. O que seria necessário para o replicar numa comunidade portadora de tradições que conheça?
- Será possível conciliar o turismo de massa com o património autêntico? Ou será que os dois são fundamentalmente incompatíveis?