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Lição 2. Limites e novas perspetivas sobre a categorização

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Por que razão as categorias não são suficientes

Os cinco domínios da UNESCO são úteis para organizar o património cultural imaterial, mas muitos investigadores e comunidades salientam as suas limitações. O património não é estático — é dinâmico, híbrido e profundamente contextual. Quando tentamos «encaixar» as tradições numa lista bem organizada, por vezes perdemos aquilo que as torna únicas.

Pense numa cerimónia de casamento. Será um ritual? Sim. Mas envolve também tradições orais (canções, bênçãos), artes performativas (dança, música), artesanato (trajes, decorações) e até mesmo conhecimentos sobre a natureza (escolher a estação certa). Um único evento pode abranger vários domínios.

Esta sobreposição revela o primeiro problema: as categorias simplificam uma realidade que é muito mais complexa.

Críticas da investigação

Estudiosos como Gireesh e Anand (2022) defendem que o quadro da UNESCO é demasiado abrangente para refletir a diversidade cultural. Na Índia, por exemplo, as tradições orais incluem provérbios, adivinhas, mitos, épicos, canções folclóricas e cânticos. Agrupar tudo isto sob a designação de «tradições orais» oculta a sua variedade e significado.

Problemas semelhantes surgem noutros domínios:

  • Os rituais vão desde pequenas tradições familiares até celebrações a nível nacional.
  • O artesanato abrange tudo, desde a cerâmica até ao bordado digital.

O risco é que o património seja uniformizado para obter reconhecimento internacional, mas perca a sua profundidade e especificidade.

Quem decide as categorias?

Outro desafio diz respeito ao poder. A classificação não é neutra.

  • Os governos podem preferir categorias que se enquadrem nas suas políticas ou na promoção do turismo.
  • As organizações internacionais podem dar ênfase a categorias «universais».
  • No entanto, as comunidades podem interpretar as suas tradições de forma diferente — não como «artes performativas» ou «tradições orais», mas sim como modos de vida ou práticas sagradas.

Quando a classificação é imposta a partir do exterior, pode entrar em conflito com a forma como as próprias comunidades valorizam o seu património.

Abordagens alternativas

Para dar resposta a estas limitações, alguns estudiosos propõem novos modelos. Fredheim & Khalaf (2016) sugerem que se considere o património não apenas como categorias, mas como:

  1. Formas – as expressões visíveis (um traje, uma dança, uma canção).
  2. Práticas – as ações e as atividades (cantar, tecer, celebrar).
  3. Relações – os significados e as ligações criadas (identidade, memória, solidariedade).

Além disso, destacam diferentes valores do património:

  • Associativo (ligado à identidade ou à história).
  • Sensacional (emoções e experiência corporal).
  • Evidencial (prova de continuidade).
  • Funcional (utilidade prática na vida quotidiana).

Esta perspetiva desloca o foco do que é o património para o que o património faz pelas pessoas.

Exemplo

Tomemos como exemplo a festa da primavera de Junii Brașovului.

  • Enquanto manifestação, trata-se de um desfile com trajes e rituais.
  • Na prática, trata-se do ato coletivo de andar de bicicleta, dançar e celebrar.
  • Enquanto relação, cria laços entre gerações e reforça a identidade da comunidade.
  • Em termos de valores, é associativo (identificação com Brașov), sensacional (alegria, orgulho), evidencial (continuidade desde a época medieval) e funcional (coesão comunitária).

É evidente que nenhuma categoria da UNESCO, por si só, consegue abranger toda esta riqueza.


ESTUDO DE CASO 1 — O evento comunitário de Drăguș: o património em ação


A comuna de Drăguș, no condado de Brașov, na Roménia, é um exemplo de boas práticas na preservação e promoção do património cultural imaterial. Trata-se de uma pequena comunidade rural situada no sopé das montanhas de Făgăraș (971 habitantes, recenseamento de 2021), que se caracteriza por uma grande atividade cultural.

A 22 de outubro de 2023, o escritor e antigo presidente da câmara Vasile Pop organizou o lançamento de um dos seus livros no Centro Cultural local — mas o evento rapidamente se transformou numa verdadeira celebração do património imaterial local.

Como a comunidade se envolveu:

  • O grupo folclórico do ensino secundário apresentou trajes, danças e costumes relacionados com casamentos, o inverno e a colheita.
  • O coro feminino da igreja interpretou autênticas canções folclóricas e religiosas.
  • A diretora da escola secundária local proferiu um discurso educativo que estabelecia uma ligação entre a literatura e o Património Cultural Imaterial.
  • Os vizinhos e familiares prepararam um buffet de doces e bebidas caseiros, seguindo receitas tradicionais.
  • Os convidados de fora da comunidade (académicos da Roménia e dos EUA, jornalistas, padres, artistas) deram o seu parecer.
  • A maioria dos habitantes locais compareceu com trajes folclóricos reconhecidos como únicos na Roménia.
  • Zorița Poparad, de 91 anos, cantou ao vivo no palco doinas muito antigas (uma tradição oral romenas do Património Cultural Imaterial).
  • A esposa de Vasile Pop dedicou um poema («História Simples») a Zorița, como forma moderna de reflexão sobre o evento, sensibilizando para o património imaterial enquanto fonte de identidade e solidariedade comunitárias.

Drăguș: Preservação do Património Cultural Imaterial através do Envolvimento da Comunidade

Drăguș ilustra exatamente o que a Lição 2 pretende abordar: um único evento comunitário combina quatro domínios da UNESCO ao mesmo tempo — tradições orais (doinas, o poema dedicado), artes performativas (coro, danças folclóricas), práticas sociais e eventos festivos (o próprio encontro) e artesanato tradicional (trajes folclóricos, receitas tradicionais). Mostra também o que Fredheim & Khalaf (2016) entendem por «relações» e «valor funcional»: o evento promove a confiança, o capital social e a resiliência da comunidade, aspetos que nenhuma categoria isolada da UNESCO consegue captar.

Exercícios e aplicações

Exercícios e aplicações (Modelo Pedagógico INTHRACE — Componente 02: Envolvimento da Comunidade, Componente 03: Interpretação e Promoção, Componente 04: Políticas e Governação)

  • Exercício 1 — Várias categorias (Componente 03): Escolha uma tradição da sua região. Classifique-a numa categoria da UNESCO. Agora, reflita: a que outras categorias é que ela também pertence? Anote todas as categorias possíveis.
  • Exercício 2 — Modelo alternativo: Fredheim & Khalaf (Componente 03): Descreva a mesma tradição utilizando as três camadas de Fredheim & Khalaf (formas, práticas, relações). Qual das descrições parece mais próxima da realidade da comunidade?
  • Exercício 3 — Entrevista à comunidade: «Como classificaria a sua tradição e porquê?» (Componente 02): Com base direta no Exemplo de Aplicação do INTHRACE para o Capítulo 3: cada aluno entrevista um membro da comunidade (artesão, ancião, intérprete) e pergunta-lhe como é que ele próprio classifica a sua tradição. Compare as respostas em aula com o quadro de referência da UNESCO. Em que as categorias da comunidade divergem das dos especialistas?
  • Exercício 4 — Workshop de mapeamento com a população local utilizando o modelo de Fredheim & Khalaf (Componente 02): A partir do Exemplo de Aplicação do INTHRACE: organize (ou simule) um pequeno workshop com 3 a 5 membros da comunidade e co-crie um mapa cultural da sua localidade. Utilize as três camadas de Fredheim & Khalaf (formas / práticas / relações) em vez das categorias da UNESCO. O que é que vem à tona que as categorias da UNESCO teriam ocultado?
  • Exercício 5 — Concepção de um evento ao estilo Drăguș e mecanismo de feedback (Componentes 02 + 03): Trabalhando em pares, concebam um evento comunitário ao estilo Drăguș para a vossa própria localidade. Identifiquem: o líder informal que poderia dar início ao evento; três subgrupos (escola, igreja, vizinhos) que poderiam contribuir; um ancião que possa partilhar um pedaço da tradição oral; um «mecanismo de feedback» moderno (um poema, uma curta-metragem, uma publicação nas redes sociais) para agradecer aos participantes — diretamente inspirado no poema dedicado «Simple Story», utilizado no evento real de Drăguș.
  • Exercício 6 — Debate: Categorias da UNESCO vs. referenciais culturais locais (Componente 03): A partir do Exemplo de Aplicação do INTHRACE: divida a turma em dois grupos. Um defende o quadro de cinco domínios da UNESCO como necessário para o reconhecimento global; o outro defende modelos flexíveis, baseados em valores e definidos pela comunidade (Fredheim & Khalaf). Utilizem o evento de Drăguș e os Junii Brașovului como evidência. Qual dos lados apresenta argumentos mais convincentes?
  • Exercício 7 — Ensaio de reflexão comparativa (Componente 03): Com base no Exemplo de Aplicação do INTHRACE: escreva um ensaio de 500 palavras intitulado «Será possível criar sistemas de classificação alternativos?», utilizando uma tradição da sua própria comunidade. Reinterprete essa tradição recorrendo a, pelo menos, dois modelos de categorização diferentes.
  • Exercício 8 — Resumo de políticas: uma proposta de categoria híbrida (Componente 04): Com base direta no Exemplo de Aplicação do INTHRACE para o Capítulo 3: pesquise a política nacional de registo do Património Cultural Imaterial (PCI) do seu país. Em seguida, redija um resumo de política de uma página propondo uma reforma específica — por exemplo, permitir categorias híbridas («artesanato festivo», «conhecimento oral da natureza») para que tradições complexas como o evento de Drăguș não sejam reduzidas a um único domínio da UNESCO.

Questões para reflexão

  • Será que a classificação consegue alguma vez captar toda a dimensão «viva» das tradições?
  • Quem deve ter a palavra final na classificação – as instituições ou as comunidades?
  • O que perdemos quando descrevemos um ritual apenas como «uma prática social» e não como uma relação repleta de significado?
  • A salvaguarda deve centrar-se nas categorias ou nos valores e nas relações que o património cria?


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