Introdução
Quando a maioria das pessoas ouve a palavra «património», pensa imediatamente em castelos, igrejas ou monumentos. Durante muito tempo, o património foi reduzido a estes elementos tangíveis – objetos feitos de pedra, metal ou tinta, preservados em museus ou restaurados para serem admirados. Mas e as canções que as pessoas cantam nos casamentos, os rituais que marcam a mudança das estações ou as técnicas de tecelagem de tapetes ou de olaria? Não fazem também parte da nossa identidade?
Talvez o património não seja apenas algo que possamos visitar, mas também algo que possamos vivenciar, representar e transmitir. O vídeo que se segue explora um desses exemplos. Eventos comunitários como os encontros noturnos «șezători», tal como o apresentado neste vídeo, mostram que o património cultural é um processo vivo, mantido através da participação, da interação social e da transmissão contínua de conhecimentos, valores e práticas culturais de uma geração para a seguinte.
É aqui que entra o conceito de património cultural imaterial (PCI). A Convenção da UNESCO de 2003 define-o como «as práticas, representações, expressões, conhecimentos e competências — bem como os instrumentos, objetos, artefactos e espaços culturais a eles associados — que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte do seu património cultural».
Em termos mais simples, o Património Cultural Imaterial (PCI) é tudo aquilo que as comunidades fazem, sabem e transmitem, e não aquilo que constroem.
Vivo, baseado na comunidade e dinâmico
O que torna a ICH especial é o facto de ser:
- A vida – sobrevive porque as pessoas a praticam. Ao contrário de um monumento, que pode permanecer vazio durante séculos, um ritual ou uma canção só perdura se for realizado.
- Baseado na comunidade – o património só existe se uma comunidade o reconhecer como seu. Se as pessoas deixarem de se interessar por ele, perde o seu significado.
- Dinâmicas – as tradições nunca são imutáveis. Adaptam-se, mudam, por vezes entram em declínio e, outras vezes, renascem sob novas formas.
- Formação da identidade – proporcionam continuidade, um sentimento de pertença e resiliência.
Pensa numa canção de embalar que a tua avó te cantava. Mesmo que hoje a ouças no YouTube ou a mistures com uma canção moderna, as suas raízes na história da tua família continuam a ser fortes.
Os cinco domínios da UNESCO
A UNESCO classifica o Património Cultural Imaterial (PCI) em cinco domínios, o que nos ajuda a perceber a sua diversidade:
- Tradições e expressões orais – histórias, lendas, provérbios, poesia.
Exemplo: o programa de narração de histórias «Land-of-Legends», na Suécia, que revitaliza a arte da narrativa oral. - Artes do espetáculo – música, dança, teatro.
Exemplo: o flamenco em Espanha ou as «danças dos rapazes» na Roménia, apresentadas em ocasiões festivas. - Práticas sociais, rituais e eventos festivos – cerimónias, celebrações, rituais comunitários.
Exemplo: o Carnaval de Binche, na Bélgica, com os seus desfiles de máscaras. - Conhecimentos e práticas relacionados com a natureza e o universo – agricultura, pesca, medicina tradicional.
Exemplo: o espaço cultural de Kihnu, na Estónia, onde as mulheres preservam as tradições marítimas. - Artesanato tradicional – a confeção manual de objetos, desde cerâmica a instrumentos musicais.
Exemplo: a tecelagem tradicional de tapetes de parede na Roménia e na Moldávia.
Como é que sabemos que algo faz parte do Património Cultural Imaterial?
O investigador Federico Lenzerini (2011) propôs cinco fatores constitutivos que nos podem servir de orientação:
- A comunidade deve reconhecê-lo como património.
- Tem de ser transmitido de geração em geração.
- Evolui e adapta-se (não está preso ao passado).
- Tem valor para a identidade.
- Promove a diversidade cultural e a criatividade.
Agora pensa: uma receita de família é apenas «comida», ou pode ser considerada património? Se for transmitida de geração em geração, reconhecida pela tua família como parte da tua identidade e representar criatividade – então preenche todos os requisitos.
Por que é que o ICH é importante?
O património imaterial não se resume apenas à preservação do passado. Também:
- Conecta as pessoas e reforça a coesão social.
- Incentiva o respeito pela diversidade cultural.
- Inspira a inovação (por exemplo, moda moderna inspirada no bordado tradicional).
- Apoia as economias locais através do artesanato e do turismo.
- Contribui para o desenvolvimento sustentável.
Experimenta tu mesmo
Nesta altura, pare e reflita:
- Para cada uma das cinco categorias da UNESCO, consegue citar uma tradição da sua comunidade?
- Pense numa tradição familiar — talvez um provérbio, uma refeição festiva ou um ritual. Aplique os cinco fatores de Lenzerini: isso pode ser considerado Património Cultural Imaterial (PCI)?
- Escolha uma tradição local e crie um breve «Perfil do Património» que inclua:
- O seu nome;
- A comunidade que o reconhece;
- Quando e como é praticado;
- Como se transmite;
- Por que é importante para a identidade.
Atividades (extraídas do Modelo INTHRACE — Componentes 01 Identificação e Documentação, 02 Envolvimento da Comunidade, 06 Tecnologia e Inovação)
• Perfil do Património (individual): Escolha uma tradição da sua comunidade. Elabore um breve «Perfil do Património» que inclua: o seu nome, a comunidade que a reconhece, quando e como é praticada, como é transmitida e por que razão é importante para a identidade. Em seguida, aplique os cinco fatores de Lenzerini — será que se enquadra no Património Imaterial da Humanidade?
• Caça ao tesouro em cinco domínios (individual ou em pares): Para cada uma das cinco categorias da UNESCO, indique uma tradição da vossa comunidade.
• Localização de tradições no eixo temporal (pares): Imaginem que estão a traçar um eixo temporal de 1850 a 2003. Onde colocariam uma tradição local da vossa comunidade? Seria considerada património em 1900? Em 1972? Depois de 2003? Debatem em pares: o que é mais difícil de proteger — um monumento ou uma tradição viva? Porquê?
• Exploração digital (trabalho de casa, Componente 06 do INTHRACE):
Navegue pela Europeana (europeana.eu) ou pela lista do Património Imaterial da UNESCO (ich.unesco.org). Encontre um elemento do seu país. Identifique o domínio e a comunidade de prática.
Questões de reflexão
- Por que razão é tão importante preservar as tradições vivas como restaurar monumentos?
- O que acontece à identidade se estas tradições forem esquecidas?
- Sentes-te mais ligado a um monumento da tua cidade ou a uma canção que os teus avós te ensinaram? Porquê?
- A globalização pode ajudar as tradições a sobreviver, ou constitui uma ameaça para elas?