O património cultural imaterial (PCI) não está imune às crises. Na verdade, pandemias, catástrofes naturais e conflitos podem ameaçar a sua sobrevivência. A 13 de dezembro de 1943, as forças de ocupação alemãs reuniram os habitantes de Kalavryta, na Achaia, separaram as famílias, conduziram os homens e os adolescentes até ao Monte Kapi e executaram-nos. Hoje, o Museu Municipal do Holocausto de Kalavryta ergue-se naquela encosta — um farol de paz e de memória coletiva. Recorre à narrativa, a ecrãs táteis, a arquivos digitalizados e a apresentações multilingues para manter estes acontecimentos vivos para as gerações que não os viveram. Trata-se de uma gestão de crises do Património Imaterial da Humanidade: não se trata de prevenir a crise, mas de garantir que a memória, a identidade e a cultura da comunidade sobrevivam a ela.
1. Por que razão o Património Cultural Imaterial (PCI) é especialmente vulnerável em situações de crise
O património cultural imaterial é, por definição, não físico — vive nas pessoas, nas comunidades e nas práticas. Isto torna-o particularmente vulnerável às crises. Quando as pessoas que mantêm viva uma tradição são separadas, silenciadas, traumatizadas ou mortas — quando os espaços onde se reúnem são destruídos —, a própria tradição corre o risco de desaparecer.
A UNESCO identifica quatro tipos de destruição relevantes para o Património Imaterial da Humanidade em contextos de crise:
- Danos deliberados — atacar o património cultural com o objetivo de apagar a identidade.
- Negligência forçada — prática que consiste em impedir, através de restrições, isolamento ou deslocamento.
- Saques e tráfico — a eliminação dos suportes materiais das tradições imateriais.
- Danos colaterais — perdas não intencionais durante um conflito ou uma catástrofe.
2. Pandemias: Interrupção da transmissão
A pandemia da COVID-19 revelou o quanto o Património Cultural Imaterial (PCI) depende dos encontros presenciais. Rituais, festivais e celebrações comunitárias — os principais mecanismos de transmissão das tradições de uma geração para a seguinte — foram suspensos ou cancelados. As consequências incluíram a perda de rendimentos para artistas e artesãos, a interrupção dos estágios e da transmissão informal, uma transição para plataformas digitais (parcialmente eficazes, mas incapazes de reproduzir a aprendizagem vivenciada) e um afastamento psicológico da identidade comunitária.
Desafio principal: Nem todas as comunidades têm acesso igualitário à tecnologia digital. A exclusão digital em situações de crise pode agravar as desigualdades já existentes na preservação do Património Cultural Imaterial.
3. Catástrofes naturais: perda do local de residência e da rede social
Terramotos, inundações e incêndios florestais podem destruir locais sagrados, centros comunitários e espaços de espetáculos — bem como arquivos, instrumentos e trajes. Mas talvez a consequência mais devastadora seja a fragmentação das redes sociais que sustentam o Património Imaterial da Humanidade. Quando as pessoas são deslocadas, as estruturas comunitárias fragmentam-se. Os efeitos psicológicos e emocionais das catástrofes — trauma, luto, desorientação — complicam ainda mais o processo de manter vivo o património.
As comunidades demonstram frequentemente uma resiliência notável: transferindo as celebrações para o mundo virtual, organizando encontros locais mais pequenos e reconstruindo os laços sociais em torno de uma memória cultural partilhada.
4. Conflitos e guerras: destruição deliberada
Os conflitos são, muitas vezes, a força mais destrutiva para o Património Cultural Imaterial — e de forma única, porque podem ser intencionais. O património cultural é, por vezes, alvo de ações específicas destinadas a apagar a identidade de uma comunidade: destruindo locais sagrados, proibindo línguas, criminalizando rituais, obrigando as comunidades a abandonar os seus nomes e práticas.
Quando as comunidades são deslocadas, as estruturas sociais necessárias à transmissão intergeracional entram em colapso. Os conhecimentos e competências tradicionais — quando subsistem apenas na memória e na prática — podem perder-se no espaço de uma única geração.
No entanto: o Património Imaterial da Humanidade (ICH) também pode ser uma ferramenta para a reconciliação pós-conflito. As tradições culturais e a narração de histórias ajudam a colmatar divisões e a restabelecer a confiança. Os eventos comunitários sinalizam o regresso à normalidade e à estabilidade. O património partilhado pode servir de base para uma cooperação renovada.
Estudo de caso — Periferia da Acaia, Grécia (Universidade da Ática Ocidental)
O Museu do Holocausto de Kalavrita
O Museu Municipal do Holocausto de Kalavrita constitui um modelo de gestão do Património Cultural Imaterial (PCI) que tem em conta as crises. Recorre à narrativa digital — ecrãs táteis com fotografias das vítimas, programas educativos, uma biblioteca digitalizada — e a um sítio Web multilingue (grego, inglês, alemão, francês) para transformar o trauma coletivo num recurso para a educação para a paz e a compreensão internacional.
Uma rede de locais gregos relacionados com o Holocausto (http://www.greek-holocausts.gr/) difunde esta memória por todo o país. É possível desenvolver percursos culturais que liguem cidades e aldeias associadas às atrocidades cometidas durante a guerra, transformando locais de tragédia em espaços de aprendizagem e reconciliação.
▶ Vídeo: Entrevista com o Sr. Grestas, diretor do Museu do Holocausto de Kalavrita
O Caminho-de-Ferro de Cremação de Odontotos — A crise económica como crise do Património Cultural Imaterial
Em funcionamento há mais de 120 anos, este comboio de cremalheira único liga Kalavryta, passando pelo desfiladeiro de Vouraikos, à costa de Corinto, atravessando aldeias tradicionais e pontos de referência naturais. Os elevados custos de manutenção ameaçam agora o seu encerramento. Não se trata de uma crise de guerra, mas sim de uma crise económica — e as implicações para o património são as mesmas: a perda de uma tradição viva e praticada que define a identidade da comunidade e sustenta as economias locais.
▶ Vídeo: Linha ferroviária em funcionamento há 120 anos, Desfiladeiro de Vouraikos, Kalavryta
Outras dimensões do Património Cultural Imaterial (PCI) da Achaia: produtos lácteos de cooperativas (Feta de Kalavryta — denominação de origem protegida); A adega Achaia Clauss e a técnica de fabrico de barris incluídas no inventário nacional do Património Cultural Imaterial; turismo alternativo (caminhadas, rafting no rio Ladonas) que apoia as economias locais, preservando simultaneamente as paisagens naturais e culturais; a Gruta de Kastria, integrada na rede de Geoparques Globais da UNESCO.
Gestão de riscos: Princípios para a preparação para situações de crise no âmbito da ICH
| Tipo de risco | Medida de preparação | Estratégia de recuperação |
|---|---|---|
| Pandemia | Documentação e arquivo digitais antes da crise; plataformas de transmissão online | Fundos de emergência para profissionais; regresso gradual aos eventos presenciais |
| Catástrofe natural | Cópias de segurança digitais externas; planos de emergência comunitários | Reconstruir as redes sociais; restaurar, em primeiro lugar, os espaços de convívio da comunidade |
| Conflito | Quadros de proteção internacional (UNESCO); documentação em locais seguros | O Património Cultural Imaterial (PCI) como ferramenta de reconciliação; narração de histórias intergeracional |
| Crise económica | Financiamento diversificado (público + privado + turismo) | Cooperativas comunitárias; turismo cultural sustentável |
Atividades
→ Análise de cenários de crise (grupos, 25 min): Escolham um dos quatro tipos de crise (pandemia, catástrofe natural, conflito, crise económica). Apliquem-no a um elemento específico do Património Cultural Imaterial do vosso próprio país. Mapeie: (1) O que se perderia em primeiro lugar? (2) Que estruturas teriam de estar em vigor antes da crise para minimizar as perdas? (3) Como seria a recuperação e quem a lideraria?
→ O museu como Património Cultural Imaterial (individual, 15 min): O Museu do Holocausto de Kalavrita transforma o trauma coletivo em património cultural vivo. Será que um museu dedicado às atrocidades constitui uma forma de Património Cultural Imaterial? Justifique a sua resposta recorrendo aos cinco domínios do Património Cultural Imaterial da UNESCO. Em seguida, reflita: o que se perderia se este museu fechasse?
→ Proposta de narrativa digital (em pares, 20 min): Conceba um projeto de narrativa digital sobre um elemento do Património Cultural Imaterial (PCI) ameaçado na vossa região. Inclua: (1) formato — podcast, documentário ou site interativo; (2) público-alvo; (3) línguas de produção; (4) mecanismo de envolvimento da comunidade; (5) um risco específico de descontextualização que irá procurar evitar.
Questões-chave
- Que medidas específicas de preparação devem ser implementadas antes de uma crise — e por que razão a recuperação pós-crise, por si só, não é suficiente?
- Quais são os quatro tipos de destruição que a UNESCO identifica em contextos de conflito? De que forma se aplicam de forma diferente ao património cultural imaterial, em comparação com o património material?
- O que faz do Museu do Holocausto de Kalavrita um modelo de gestão do Património Cultural Imaterial (PCI) que tem em conta as situações de crise?
- Por que razão a ameaça de encerramento do caminho-de-ferro de cremalheira de Odontotos constitui uma crise do Património Cultural Imaterial (PCI), e não apenas uma crise económica?
- De que forma o Património Cultural Imaterial pode contribuir para a reconciliação pós-conflito? Quais são os riscos de utilizar o património desta forma?